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26.7.17

A lógica do mestre André



«A propósito de uma entrevista que André Ventura deu ao jornal i, com considerações polémicas sobre a comunidade cigana, alguns jornais repescaram um artigo que o candidato do PSD à Câmara de Loures (entretanto o CDS retirou-lhe o apoio) escrevera no Correio da Manhã sobre o atentado de Nice, no ano passado. Para Ventura, no combate ao terrorismo islâmico "é fundamental reduzir drasticamente a presença e a dimensão das comunidades islâmicas dentro da União Europeia", porque "qualquer um, de raízes muçulmanas ou convertido, se torna uma potencial ameaça".

Uma vez que o autor não explicou como é que essa "redução drástica" se faria, o leitor fica na dúvida: ou Ventura se está nas tintas para resolver o que quer que seja ou acha que os países europeus deveriam iniciar um processo de perseguição e deportação em massa de muçulmanos, mesmo se cidadãos cumpridores das leis (porque "qualquer um" é "uma potencial ameaça"), e que isso, por algum milagre ou acaso, traria paz e redenção civilizacional à Europa.

Aposto na primeira hipótese: Ventura não anda na política para ajudar ninguém, mas só para ganhar votos. E, para esse objectivo, qualquer táctica serve. Foi por isso que criou a figura do "tipo que diz as verdades", "aquilo que toda a gente pensa e ninguém tem coragem de dizer". É a velha manha populista de espicaçar os ressentimentos e inseguranças do eleitorado, passando por cima da complexidade dos problemas e prometendo soluções finais que não são solução para nada. Quem aprecia a táctica pode ver como está a correr a presidência de Donald Trump, a mais inútil e desastrada de que há memória. (...)

Sobre os ciganos, o candidato recorre ao mesmo simplismo: pega num problema real (o modo de vida anti-social de muitos elementos da comunidade cigana) e, em vez de propor qualquer via de acção minimamente plausível, atira-se à "etnia cigana" como um todo, definindo-a como o inimigo (aqueles que "se acham acima das regras do Estado de Direito").

Ao contrário do que muitas vezes se diz, a polémica em torno dos populistas não é sobre as causas; é sobre as soluções. Não é sobre a existência ou não de barris de pólvora sociais; é sobre se queremos um pirómano a guardar os barris de pólvora.» (Os realces são meus.)

Francisco Mendes da Silva
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E quanto à lenda da batalha de Ourique…



… nunca alguém saberá se os deuses estiveram do lado de Afonso Henriques ou do Reino de Leão…


«A batalha de Ourique, tenha ou não ocorrido conforme as lendas e tradições indicam, tem no entanto a maior importância histórica porque ela marca o início de uma lenda que suporta e justifica mais tarde o direito de D. Afonso Henriques a declarar-se Rei de Portugal, garantindo assim definitivamente a separação de Portugal do Reino de Leão. (…)

O futuro rei, terá tido uma visão na véspera da esperada batalha, em que um eremita e depois o próprio Jesus Cristo terá aparecido e profetizado que D. Afonso Henriques sob o sinal da cruz, seria Rei, e que o seu reino se expandiria pelos lugares mais estranhos e recônditos do mundo, para espalhar a fé cristã e a palavra de Cristo.»
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A tosse convulsa



«Um dos mais esquecidos escritores portugueses, Manuel Laranjeira, viu como poucos, no início do século XX, os dilemas do nosso país: "O mal da sociedade portuguesa é apenas este - a desagregação da personalidade colectiva, o sentimento de interesse nacional abafado na confusão caótica dos sentimentos de interesse individual." Ler o que escreveu há mais de um século é entender o que estamos a observar nestes dias em que o fogo vai calcinando o que resta do verde nacional, a cor da esperança e do mar que ocupa a nossa bandeira. Pode ser simbólico: mas o verde destruído nas terras do interior é o calcinar da esperança nacional. Face a isso assiste-se a uma libertina ocupação indígena: caçar culpados fáceis, para que alguns possam dormir descansados enquanto o fogo destrói todas as promessas de reformas florestais. Porque, por este andar, no final do Verão pouco restará. O suspiro de fadiga constante do deputado Hugo Soares diz tudo sobre o país: "O Governo tem 24 horas para tornar pública a lista nominativa das pessoas que perderam a vida na tragédia Pedrógão Grande e esclarecer quais foram os critérios." Só faltou o deputado apontar o dedo anunciando o apocalipse se o Governo não divulgar os nomes. Assim ameaça. É a chamada bolha de marmelada. Se rebentar, encherá toda a gente de doce. Incluindo o próprio. (…)

A transparência desde o primeiro minuto teria dado muito jeito para se evitar este momento digno de uma feira ambulante, onde em vez de carrinhos de choque se utilizam vítimas. Este momento de tosse convulsa em que se transformou o debate político (chamemos-lhe assim por bondade suprema) merece lágrimas. Pelo meio, o debate sobre o futuro da floresta perdeu-se entre o Lobo Mau e a casa frágil dos três porquinhos. O verde desaparece, torrado, enquanto a classe política lisboeta toca violino.»

25.7.17

Templos budistas e não só (3)



Templo do Céu (Tiantan Park). Pequim, China (2003).

Trata-se de um conjunto de templos taoistas, o maior da China. Quase todo construído durante a Dinastia Ming, a partir de 1420, foi considerado Património da Humanidade pela UNESCO em 1998. Inclui a Sala de Oração pelas Boas Colheitas, o Altar Circular e a Abóbada Imperial Celestial. Ocupa uma área muito extensa (quase 3 milhões de metros quadrados), sendo a maior parte coberta de vegetação.


Nunca pensei ter «saudades» de Luís Montenegro!


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Hugo Soares: já passaram 24 horas!



PSD dá 24 horas ao Governo para divulgar lista de Pedrógão.

Alguma notícia de enforcamento? Duelo? Assassinato?
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Dica (593)




«O turismo é uma importante atividade económica, garante emprego e exportações. Por isso não se questiona, apenas se promove. Foi essa a prática do Governo PSD/CDS mas também do atual, bem como dos presidentes das câmaras de Lisboa e Porto. Todos preferem recolher os frutos imediatos do turismo desenfreado que promovem de forma acrítica, sem preocupações de longo prazo. Como em qualquer monocultura, a especialização no turismo massificado é um erro que pagaremos muito caro no futuro. (…)

Boa política económica ou local não é fomentar um negócio de monocultura, por mais resultados imediatos que dê, sem olhar a consequências futuras. Não é colar uma etiqueta "de charme", competitiva, ou outra que ajude a vender a cidade-produto. Boa gestão política requer, às vezes, precisamente o contrário: encontrar mecanismos inteligentes para refrear as bolhas que insuflam, com a responsabilidade de sabermos que um dia rebentarão.» 
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Teresa Leal Coelho e CML: não acertam uma!



«Onde se POSSA», minha senhora, «Onde se POSSA»! 
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Eu já tive namoradas de todas as cores

«Há um momento de viragem em qualquer debate sobre racismo, comunidades minoritárias ou culturas diferentes: é quando o último argumento de autoridade é que “eu até tenho amigos pretos”. É no que estamos na defesa do candidato racista do PSD em Loures. Mas já ouvimos essa escapatória muitas vezes, não é verdade?

Voltemos um pouco atrás. Este argumento dos “amigos pretos” não é o primeiro, ele tem de ser poupado para quando for desesperadamente necessário para restabelecer a normalidade do orador, sobretudo se se sentir suspeito de deriva envergonhante. Antes dessa evocação dos amigos fora de portas, veio a substância: os outros, os “pretos”, comportam-se de modo inaceitável ou têm hábitos ou atitudes que contrastam com as “nossas” e portanto devem ser disciplinados.

Assim, o argumento, no início, é só que eles são diferentes. A norma não aprecia esse atrevimento da diferença e o nosso argumentador amofina-se com o incómodo assim causado. Portanto, o estado natural da sociedade, que é só o que o nosso homem reconhece como padrão, poderia ser perturbado se alguém tivesse outra cor de pele, ou comesse de forma diferente, ou ouvisse música de forma diferente, ou rezasse a um deus diferente. A estranheza desses hábitos suspeitos só pode ser superada pela integração niveladora: eles devem passar a falar como nós, a rezar ao nosso deus e a ouvir a nossa música. Eles precisam de deixar de ser diferentes, pela razão mais elementar, isso chateia.

É aqui que aparece o “amigo preto”. Se o incómodo com os outros contrasta com a noção mais simples da vida humana, ou se descobrimos que estamos sempre confrontados com outros, que na mesma cor de pele há deuses diferentes e que nem se apreciam, que na mesma religião há cores de pele diferentes, que na mesma língua há gente que tem hábitos e culturas diversas, que no nosso prédio e na nossa família há modos de ser distintos – se a diferença se impõe porque é a vida, então é preciso lembrar o “amigo preto”.

A evocação desse amigo diferente é precisa por uma única razão: o problema é o argumentador, não é só o argumento. É ele que se sente com falta de legitimidade. Por isso, se for suficientemente hiperbólico, haverá quem, para defender o dito candidato do PSD, encha o peito e solte que “por ter crescido ali, tive e tenho amigos negros, mulatos, muçulmanos, tive namoradas de todas as cores. Só não tive namoradas ciganas porque os irmãos tinham a tendência para contra-argumentar com a navalha.” Há nisto um macho-alfa que não deixa de ser encantador, ele já teve “namoradas de todas as cores”, fez a colecção completa no álbum das cores. Mas faltam-lhe as “namoradas ciganas”, num indiscreto plural, e não é porque elas não quisessem, é por causa das navalhas dos irmãos. Fecha-se o ciclo do “amigo preto” com as “namoradas de todas as cores” e a excepção vergonhosa das ciganas, coitaditas.

O discurso do “amigo preto” e das “namoradas ciganas” é a voz da ralé política da nossa sociedade. Ignora tudo: ignora a discriminação histórica, ignora o desprezo cultural, ignora a exploração das comunidades imigrantes, ignora a degradação económica e a marginalização dos nómadas. Mas, pior, ignora quem se esforça: ignora os mediadores ciganos que respeitam a identidade da comunidade e transformam a sua vida, ignora os professores que ensinam e protegem as crianças, ignora os casamentos por amor, ignora quem prosseguiu os seus estudos, ignora quem assumiu responsabilidades no país.

Um cigano que joga na selecção nacional de futebol faz mais pela nossa democracia do que todas as paletes de candidatos xenófobos e os seus advogados namoradeiros.» (Os realces são meus.)

Francisco Louçã

24.7.17

Templos budistas e não só (2)



Templos de Bagan. Birmânia (2009).

Foi de balão que vi as ruínas de Bagan – uma experiência inesquecível! Os templos ocupam 41 km2 e foram construídos entre o século XI e o XIII, quando Bagan era a capital do império birmanês. Julga-se que chegaram a ser 5.000, em 2014 foram oficialmente quantificados em 3.312. A região é sujeita a sismos e o maior dos últimos tempos, de 1975, provocou grandes estragos. Em 2016, um outro atingiu 185 templos. Em Bagan, a restauração é uma actividade contínua…



Dica (592)




«A ideia, que tantos martelam nos media, de que é "preciso" defender uma "liberdade de expressão" entendida como a liberdade de um discurso discriminatório que atente gratuitamente contra a dignidade de indivíduos ou grupos não é só uma ideia estúpida e desonesta nos tempos em que esse discurso domina, com toda a virulência, as caixas de comentários e as tais "redes sociais". É uma ideia contrariada pela própria Constituição e pela Carta Europeia dos Direitos Fundamentais, pactos escritos da nossa comunidade que valorizam mais (e bem) a dignidade humana - portanto a liberdade de ser - que a liberdade de dizer. Porque o nosso princípio básico civilizacional é o respeito mútuo, a ideia de que o outro vale tanto como eu, tem os mesmos direitos, é igual a mim. Não tenho por isso o direito de o agredir a não ser em legítima defesa; não tenho porque sentir-me agredida pela sua mera existência. Esse sentimento, o de alguém se sentir ameaçado pelo que considera outro, é que é uma anomalia. Alimentá-lo, credibilizá-lo e tentar lucrar com ele é a negação de tudo o que estamos a tentar construir desde Auschwitz.» 
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Marques Mendes, ainda



Marques Mendes: «Seja cigano, seja muçulmano, seja um português qualquer normal» (Telejornal da SIC, 23.07.2017)

Um «português qualquer normal» mede hoje, em média 1,73cm.
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24 de Julho, Moçambique e caranguejos



Morei durante toda a minha infância na Av. 24 de Julho – na antiga Lourenço Marques, entenda-se. Enquanto aprendia todos as estações e apeadeiros da Linha do Norte na «Metrópole», ouvia falar do frio no Natal e fazia redacções sobre as latadas no Douro.

O nome da rua devia celebrar o dia em que Patrice Mac-Mahon presidente da França, declarou, em 1875, que a Ilha da Inhaca (e a dos Elefantes) era território moçambicano e, portanto, português, numa acção de arbitragem entre o governo britânico e o de Lisboa. Mas suspeito que vivi nove anos a comemorar a entrega de Lisboa ao Duque da Terceira, em 24 de Julho de 1833, pelo Duque de Cadaval, antigo primeiro-ministro do rei D. Miguel.

Vingança consumada: foi em Inhaca que comi os melhores caranguejos do mundo, quando voltei a Moçambique há 15 anos. 
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Marques Mendes no seu melhor



«Num comunicado raro, o Instituto Nacional de Estatística ataca fortemente o "Conselheiro de Estado e comentador" por ter antecipado [ontem] em primeira mão uma taxa de desemprego publicada há um mês. (…)

Para que se perceba as consequências da falsa antecipação de Marques Mendes, o INE diz que "estas afirmações podem afetar negativamente a confiança da opinião pública sobre a forma como o INE exerce a sua missão de serviço público"» 
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Culpabilização nacional: um populismo



«Agora que vai esfriando uma parte da demagogia que se alimentou do dramático incêndio em Pedrógão Grande e do ridículo roubo de armas numa unidade militar, talvez se justifique um olhar introspetivo sobre a forma como a nossa sociedade transforma dramas e problemas num espetáculo de que muitos se aproveitam inescrupulosamente. Tudo serve para criar um reality show, inclusive para retirar dividendos políticos e para aparecer teatralmente nas imagens da televisão com ares de sofrida piedade, à custa da dor de outros. Há algo estruturalmente errado e insensível no nosso país.

Os portugueses adoram os dramas e as crises em que possam treinar essa sublime capacidade que, em esquizofrenia coletiva, consiste em desesperadamente culpabilizar alguém, torturar alguém no pelourinho público sob os holofotes da comunicação social, exigir responsabilidades (naturalmente, “até às últimas consequências”), destruir imagens e respeitabilidades, linchar, assassinar o carácter de alguém em público, exigir demissões, julgar na rua e condenar, num país que, desta forma, não é um Estado de Direito. (…)

Perde-se a serenidade e mesmo a sanidade. Políticos e comunicação social pressentem uma imediata predisposição popular para uma nova telenovela dramática que prenderá as atenções do país durante algum tempo, e imediatamente cavalgam a corrente onda de demagogia fácil. É um “Populismo à Portuguesa”. Mas é também uma patologia que seria mais adequada a um qualquer país culturalmente atrasado. (…)

Aparecer nos locais dos dramas facilmente rende visibilidade nas televisões. Toda esta coreografia de vaidades, interesses políticos e interesses mediáticos é, afinal, parcialmente assente na indireta exploração da dor e dos dramas reais de outros. Para muitos, este espetáculo reality show configura um pequeno período de êxtase de visibilidade pública. Resta saber se tudo isto, à custa de sofrimento de alguns, é moral. (…)

Esse facto concorre para se compreender como o nosso país é tão facilmente submergido por ondas de demagogia que pretendem ganhar dinheiro e lucros políticos com dramas, erros e desastres, cavalgando o que todos eles pressentem estar a mobilizar popularmente. Por isso, por definição, esta é uma demagogia populista.

Em momentos de delírio demagogo, culpabilizador e inquisitorial, torna-se perigoso cultivar a lucidez e a independência de espírito e de análise. Mas nenhuma sociedade é inteligente, civilizada e arrojada quando segrega o medo de se manter a lucidez em lugar da fácil demagogia. (…)

Um último comentário sobre a primitiva crença nacional que consiste em acreditar na vantagem de “ondas de demissões”. Só quem nunca liderou, e não sabe liderar, não compreende que, depois de um grande erro cometido, provavelmente a pessoa mais preparada para evitar esse erro no futuro é quem o cometeu, se tiver tido a inteligência e a humildade de reconhecer e aprender com o erro. E no que refere ao conceito duvidoso (mas mediático) de “retirar consequências políticas” (isto é, demissões teatrais que o país do reality show adora), imagino já que, se o superior de alguém que errou se demitir, subsequentemente o mesmo deverão fazer o superior daquele, o ministro, depois o primeiro-ministro e o Presidente da República que os empossou ou os manteve em funções. Demissões em cascata, “retirando consequências políticas”. Seria uma irracionalidade (ou, quem sabe, uma singular oportunidade para reinventar o país?).»

23.7.17

Templos budistas e não só (1)




Wat Phra That Doi Suthep, Chiang Mai, Tailândia, 2012.

É um dos templos budistas mais importantes do Norte da Tailândia, que começou a ser construído em 1386 no alto de uma montanha, a pedido do Rei Kuena. Conta a lenda que esse rei tinha uma relíquia de Buda sem saber onde a guardar. Atou-a a um elefante e esperou para ver onde ele a colocava. O elefante subiu a uma montanha, ajoelhou-se e morreu. O rei decidiu então que o templo fosse construído nesse lugar. 






Macron: o gozo que isto me dá!

Notícias de um Verão tórrido



No dia 23 de Julho de 1975, este cartaz foi capa do Diário de Notícias.

Juntamente com a cantiga («Força, força, companheiro Vasco»), deu corpo à campanha da 5.ª Divisão, de apoio a Vasco Gonçalves, iniciada quatro dias antes. Foi sol de pouca dura, como é sabido: o IV Governo Provisório caiu em 8 de Agosto, dia em que teve início o V que viria a durar pouco mais de um mês.


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Dica (591)




«Jaroslaw Kaczynski, the most powerful politician in Poland, is the architect of judicial reforms that have drawn massive criticism across Europe. As the Polish government chips away at checks and balances, is it possible the politician could drive the country out of the EU?» 
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A postos para as autárquicas



«Começam a limpar-se as armas para a grande contenda de Outubro. Não é, como nos tempos bolcheviques, uma tomada de diferentes Palácios de Inverno, mas assemelha-se em termos de lógica de poder.

O poder autárquico foi durante muito tempo o músculo das grandes manobras que decorrem em Lisboa. Mas, nestes tempos de mudança, pululam candidatos não-alinhados, desde figuras que regressam como se nunca se tivessem ido embora a estreantes que driblam o poder dos partidos tradicionais. Afinal nada que já não fosse visível em 1901, quando o perspicaz Mariano de Carvalho escrevia: "Os princípios, conforme vulgarmente se diz, foram à carqueja. Por isso mesmo, porque há muito mais questões de homens e de interesses do que conflitos de ideias, os laços partidários são frouxos." Basta ver o número de candidatos que deixaram os seus partidos porque supõem que são mais importantes do que as estruturas onde evoluíram em candidaturas anteriores.

Vai ser interessante verificar o que vai acontecer em Oeiras, no Porto ou em Cascais. Ou em Loures, depois de surgir um candidato conhecido por aparecer na televisão a dizer coisas inenarráveis para um político que não quer ser confundido com um populista. O problema é que parece que o modelo vai vingar, com cobertura dos dirigentes do partido pelo qual concorre. Sabe-se que, na política, o estado de ânimo é decisivo numa campanha que quer ter sucesso. Os eleitores estão cansados, perplexos e irritados. Veja-se Lisboa. Os moradores estão a ser atirados para fora do centro pela pressão imobiliária. O trânsito é caótico e os transportes públicos, deficientes. Que respostas têm os candidatos para este momento explosivo? É preciso dar esperança aos eleitores. Candidatos tristes não ganham eleições. Porque não lideram, não seduzem nem convencem. As opções em Lisboa são frágeis: entre o candidato da cidade postal ilustrado e do "progresso" imobiliário, e uma candidata que quer construir 20 estações de metro (ao arrepio de tudo o que foi a sua política anti-investimento público quando estava no Governo) e outra que esteve desaparecida em combate antes de dizer que não era para ser a escolhida (ficando-se sem perceber quem, entre os anteriores primeiros-ministros do seu partido, era a primeira escolha), que se pode fazer? Ninguém confia em quem não mostre segurança.

Pensemos um pouco sobre as autárquicas, sobretudo porque os eleitos nas cidades, vilas e aldeias são quem está mais próximo dos eleitores. E estes querem resultados. O voto é um contrato público sobre o bem comum. Numa época em que os políticos eleitos são produtos das elites (veja-se Macron ou Trump), apesar de não serem eleitos por elas, e em que se assiste à substituição dos gestores e especialistas políticos e económicos por milionários, financeiros e empresários, porque estas elites querem governar directamente, que resposta dará o poder autárquico a este mundo em mudança? Nas autárquicas escolhe-se com mais facilidade um "homem providencial", aquele que "mostra obra". Tornaram-se questões de homens carismáticos, algo que diz muito sobre o caminho da política nos nossos dias. Já não são as ideias que vencem: é a sua percepção. Talvez por isso estas autárquicas nos vão dizer tanto sobre o futuro político de Portugal.»